sexta-feira, 13 de julho de 2012

A desolação


Vimos como as moções são todo movimento interior, impulso, atração da “alma” que aparecem sobretudo na oração, mas também a partir da vida, dos acontecimentos e de situações eclesiais e sociais. Como experiências espirituais concretas podem preceder ou acompanhar uma escolha, uma decisão e também decorrer dela como confirmação.
             Chamamos às moções boas de consolação e às moções más de desolação. Ninguém é culpado por ter más moções. Como as boas moções, as más moções também surgem sem esperar, acontecem. São reações interiores diante da Palavra de Deus. Costumamos achar que se nos sentimos mal na oração é porque não rezamos, o que não é verdade! Você rezou sim! Isso só indica que está havendo moções interiores. Santo Inácio dizia que se não há nenhum movimento na oração, algo está errado. A desolação também é fruto da oração. Se não se sente nada enquanto se reza, deve-se verificar se está rezando de modo conveniente.
             A Desolação é “obscuridade da alma, perturbação, incitação a coisas baixas e terrenas, inquietação proveniente de várias agitações e tentações que levam à falta de fé, de esperança e amor, achando-se a alma toda preguiçosa, tíbia, triste e como que separada do seu Criador e Senhor.” (EE 317)
             Vejamos outras características da desolação:
             - É experiência de crise, de torpor, de esvaziamento interior progressivo. É impulso para baixo, para o terreno.
          - É desânimo, pessimismo, desconfiança, aridez, desamor, frieza, ressentimento, temor, confusão, silêncio de Deus.
            - É toda frieza diante de Jesus Cristo.
            - É sentir que a mudança é impossível, por perda de confiança em si mesmo.
            - É perda de interesse pelos outros, para o serviço.
           - É experiência existencial, tudo está em desarmonia, desunificado, desintegrado.
        A desolação é também um estado interior intenso, fora do normal, perceptível, que repercute nos outros níveis da pessoa: afetivo, mental, corporal. Uma pessoa desolada sente sua afetividade ferida se intensificar, amargurada, confusão de idéias, apavorada, mal-estar físico, preguiça, pesada, mal-estar e desconfiança com os outros.
             Não se deve confundir a desolação com a depressão. A desolação tem origem numa situação interna, se dá na oração, no confronto com a Palavra de Deus, refere-se ao sentido da vida, aponta para a frente, para o novo, para o desafio. A depressão é provocada por uma situação externa, por alguém ou por uma frustração, uma derrota, minando as forças da pessoa, isolando-a, desanimando-a. A desolação está no nível da fé, a depressão está no nível afetivo. A desolação faz referência ao futuro, a depressão faz referência ao passado. A desolação pode se aproveitar de uma depressão, somar-se a um estado afetivo frágil.
             Quando certas desolações são constantes ao longo de uma caminhada, podem indicar resistências e conflitos diante de um possível convite ou chamado de Deus.  Se a pessoa está buscando sinceramente o Senhor e a vocação pessoal e sente confusão interior, inquietação, tristeza..., apesar da busca sincera, significa que algo não está bem com respeito à escolha. Com efeito, a doação a Deus e aos irmãos sempre deixa a pessoa intimamente satisfeita, apesar do sacrifício que exige.
             Deus nos ensina através da desolação. Ela pode ser lição do Senhor! 

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