“Temos este tesouro em
vasos de barro...” (2Cor 4,7)
Discernir
significa “conhecer” as emoções, os
sentimentos, que acontecem em uma pessoa concreta. Por isso você deve se
conhecer, ter um conhecimento amplo de si mesmo. O confronto com a Palavra de Deus na oração deve ajudar nessa
tarefa, “porque a Palavra de Deus é viva,
eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes, e atinge até à divisão
da alma e do corpo, das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções
do coração. Nenhuma criatura lhe é invisível. Tudo é nu e descoberto aos olhos
daquele a quem havemos de prestar contas” (Hb 4,12-13).
Essa
Palavra atinge o coração, a fonte... Quando atinge o coração, algo
acontece. Diante desta Palavra o nosso coração reage. Vêm as reações ou movimentos interiores. Ninguém fica neutro a estas. Elas podem ser:
paz, perturbação, tristeza, ânimo, secura, inspiração, luz, medo, insegurança,
confusão, atração por Deus... Tudo isso são
moções.
Santo
Inácio divide as moções em boas e más. Chama de consolação às moções boas, que nos conduzem para Deus. Chama de desolação às moções más, que nos
afastam de Deus.
Deus
se manifesta nas moções, como pequenos toques... Se há moções sempre presentes,
aí há algo de Deus. As moções são a
linguagem do coração. Devemos ir atrás das moções persistentes. As outras,
que vem e vão, devemos desprezá-las.
Tanto
a consolação como a desolação nascem do coração e repercutem nos outros níveis
da pessoa: afetivo, mental, corporal.
A consolação é movimento de expansão para fora, vem de dentro e se alarga. Uma pessoa consolada sente sua afetividade
tranquila, sem feridas, as idéias em ordem, a cabeça leve, o corpo leve, solto,
tranquilo, uma melhor relação com os outros...
A
Consolação é um estado de ânimo
forte, intenso, além do normal, perceptível. A pessoa percebe sem saber o
porquê. Não é algo rápido, mas é algo que tem duração. No entanto, não se pode
reter. Do mesmo modo que aparece pode ir embora. Não temos domínio sobre a
consolação, não conseguimos repetí-la. Cada consolação é única, porque é graça de
Deus. Ele dá a quem quiser e quando quiser. Ela é dom, não é conquista pessoal. Ela vem, entra e sai quando quer.
Devemos pôr os meios para acolhê-la, buscá-la, mas não a provocamos. Para cada
pessoa a consolação é única e cada uma a capta de um modo diferente.
Não
se deve confundir a consolação com estados eufóricos. A consolação é interior, silenciosa, calma, centrada em Deus e nos
outros. O estado eufórico é
exterior, ruidoso, o centro é a pessoa voltada para si mesma. No entanto, pode
se transformar o estado eufórico numa consolação, levando-o da exterioridade para a interioridade, na
oração, no confronto com a Palavra de
Deus. Apesar dos conceitos serem pobres e frágeis para definir a consolação,
podemos elencar algumas de suas características:
-
Ela é todo movimento interior que
deixa a pessoa cheia de confiança em
Deus, de afeição por Jesus e de abertura para os outros. É impulso para o alto, para o bem.
-
É toda alegria interior que eleva e
atrai a pessoa para as coisas celestiais e para a sua salvação,
tranquilizando-a e pacificando-a em seu Criador e Senhor.
-
É paz, alegria, confiança, ânimo,
experiência do amor de Deus e do sentido da vida...
-
É experiência de uma presença íntima,
pessoal, de ser amado gratuitamente.
-
É experiência existencial, tudo está
em harmonia, unificado, integrado....
-
É sensação de liberdade, de que o
melhor de nós vem à tona...
Quando
certas consolações são “constantes” ao longo de uma caminhada, e concordam com
experiências semelhantes, anteriores, então as consolações tornam-se indicação
ou confirmação importante para conhecer a Vontade de Deus sobre uma pessoa. Se
na sua oração ou na sua vida (comportamento, modo de ser, etc), você
experimenta consolações ao se orientar para uma certa vocação específica, pode
ter a certeza de que essas moções, se foram constantes, indicam a voz do Senhor
que chama. Sentir em si, profunda e constantemente, a consolação ao escolher
algo para o serviço do Senhor, da Igreja e do Mundo por causa do Evangelho,
pode ser considerado como um convite que Deus faz.
Fonte: Onde está o teu coração? - Exercícios Espirituais para Jovens Inquietos
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